ECONOMIA E POLÍTICA INTERNACIONAL
Por Samuel Sleiman | Blog do Muka
EUA e China juntos contra o Brasil? Tarifas apertam o país em duas frentes
Washington impõe uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros,
enquanto Pequim cobra 55% sobre a carne bovina que ultrapassar a cota anual.
As medidas não foram coordenadas, mas deixam um recado claro: quando seus
interesses estão em jogo, as grandes potências fecham seus mercados.
Publicado em 17 de julho de 2026
O Brasil está sendo pressionado comercialmente pelos dois maiores protagonistas da economia mundial.
De um lado, o governo dos Estados Unidos anunciou uma tarifa adicional de
25% sobre grande parte dos produtos brasileiros. Do outro, a China
estabeleceu uma cota para a carne bovina importada do Brasil e passou a cobrar uma
sobretaxa de 55% sobre o volume que ultrapassar esse limite.
As duas decisões não fazem parte de uma ação conjunta entre Washington e Pequim. Os governos americano e chinês, inclusive, mantêm uma intensa disputa econômica e geopolítica entre si.
Entretanto, para o Brasil, o resultado prático é semelhante: menos competitividade para os produtos nacionais, pressão sobre empresas exportadoras, risco para empregos e necessidade urgente de encontrar novos mercados.
Não existe amizade automática no comércio internacional.
Estados Unidos e China defendem seus produtores quando consideram necessário. O Brasil precisa aprender a proteger seus próprios interesses sem se tornar dependente de nenhum dos dois lados.
Estados Unidos aplicam tarifa adicional de 25%
No dia 15 de julho de 2026, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, conhecido pela sigla USTR, anunciou a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos originários do Brasil.
[1]
A cobrança entrará em vigor a partir das 00h01 do dia
22 de julho de 2026, pelo horário da costa leste dos Estados Unidos.
Existe uma regra de transição para determinadas mercadorias que já estavam em transporte antes dessa data.
[2]
A tarifa de 25% será acrescentada aos impostos que normalmente já são cobrados sobre cada produto. Isso significa que, em alguns casos, a carga total poderá ser superior aos 25% anunciados.
Entre os setores potencialmente afetados estão produtos industrializados, máquinas, móveis, calçados, açúcar, etanol, produtos de madeira e outras mercadorias brasileiras destinadas ao mercado norte-americano.
Nem todos os produtos brasileiros foram incluídos
Apesar do discurso duro do governo americano, diversas mercadorias ficaram fora da nova cobrança.
Entre as exceções citadas oficialmente pelo USTR estão:
- carne bovina;
- suco de laranja;
- aeronaves e peças aeronáuticas;
- produtos energéticos;
- produtos submetidos a determinadas tarifas especiais da Seção 232;
- matérias-primas sem oferta suficiente dentro dos Estados Unidos;
- produtos cuja tributação poderia provocar desabastecimento ou prejuízos à economia americana.
A lista de exceções mostra que os Estados Unidos também fizeram seus próprios
cálculos. Washington evitou sobretaxar mercadorias brasileiras consideradas
necessárias para suas indústrias ou para seus consumidores.
[3]
Ou seja: os americanos impuseram barreiras ao Brasil, mas procuraram preservar
aquilo que poderia fazer falta ou ficar mais caro dentro do próprio país.
Por que o governo Trump decidiu taxar o Brasil?
A decisão foi tomada depois de uma investigação iniciada em julho de 2025, com
base na chamada Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos.
Segundo o USTR, determinadas políticas e práticas brasileiras estariam
prejudicando ou restringindo o comércio americano.
As acusações apresentadas pelo governo dos Estados Unidos envolvem:
- comércio digital e atuação das plataformas tecnológicas;
- serviços de pagamentos eletrônicos;
- tarifas preferenciais concedidas pelo Brasil a outros países;
- fiscalização e aplicação das normas anticorrupção;
- proteção da propriedade intelectual;
- acesso do etanol americano ao mercado brasileiro;
- combate ao desmatamento ilegal.
O governo americano afirma que realizou consultas, audiências públicas e
negociações com o Brasil antes da decisão final. De acordo com o USTR, mais de
360 manifestações foram recebidas e 77 representantes participaram das audiências
realizadas nos dias 6 e 7 de julho.
[1]
Brasil considera medida injusta e prepara reação
O governo brasileiro rejeitou as acusações e classificou a medida como injusta
e politicamente motivada.
Entre as respostas em análise estão novas negociações diplomáticas, questionamentos
na Organização Mundial do Comércio e a aplicação da Lei da Reciprocidade Econômica.
Essa lei permite que o Brasil adote contramedidas quando outro país impõe barreiras
consideradas prejudiciais aos interesses nacionais.
Uma eventual reação, porém, deverá ser cuidadosamente construída. Aumentar
indiscriminadamente as tarifas sobre produtos americanos também poderia encarecer
máquinas, medicamentos, tecnologias, insumos e outros bens utilizados por empresas
e consumidores brasileiros.
Por isso, o governo estuda respostas envolvendo serviços, direitos de propriedade
intelectual e interesses econômicos americanos, tentando evitar uma retaliação
que provoque novos prejuízos dentro do Brasil.
[4]
China fecha a porteira para a carne brasileira
A medida chinesa funciona de maneira diferente da tarifa americana.
Desde 1º de janeiro de 2026, a China aplica um sistema de cotas para a importação de carne bovina proveniente dos principais países fornecedores.
Para o Brasil, a cota estabelecida para 2026 foi de
1,106 milhão de toneladas.
[5]
O produto exportado dentro desse limite permanece submetido à tributação ordinária.
Quando a quantidade ultrapassa a cota, passa a ser cobrada uma tarifa adicional
de 55%.
Segundo o Departamento de Economia Rural do Paraná, o Deral, essa sobretaxa é
adicionada à alíquota de 12% normalmente incidente sobre a carne, levando a
tributação nominal do volume excedente a até 67%.
[6]
Na prática, uma cobrança desse tamanho pode eliminar a margem dos frigoríficos e tornar muitos negócios economicamente inviáveis.
A China não tomou a medida apenas contra o Brasil
É importante esclarecer que a salvaguarda chinesa não foi criada exclusivamente contra os produtos brasileiros.
O mecanismo também atinge fornecedores como Austrália, Argentina, Uruguai,Nova Zelândia e Estados Unidos.
A China afirma que a importação em grande escala estaria prejudicando seus
pecuaristas e pressionando os preços internos. Por esse motivo, Pequim decidiu
limitar as compras externas e proteger sua própria produção.
A medida foi estabelecida inicialmente por três anos. A cota brasileira deverá
subir gradualmente para 1,128 milhão de toneladas em 2027 e 1,151 milhão de toneladas em 2028.
[5]
Por que o impacto é tão grande para o Brasil?
O Brasil se tornou extremamente dependente do mercado chinês para vender sua carne bovina.
Em 2025, aproximadamente 53% de toda a carne bovina exportada pelo país teve
a China como destino. Os embarques ao mercado chinês ficaram próximos de
1,7 milhão de toneladas, volume muito superior à cota permitida para 2026.
[5]
Isso significa que, para evitar a tarifa de 55%, os frigoríficos brasileiros
precisam reduzir significativamente os embarques ou encontrar outros compradores.
O problema é que atualmente não existe outro mercado capaz de substituir a China
no mesmo volume e com a mesma velocidade.
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes, a Abiec, estimou
que as exportações brasileiras de carne bovina podem cair aproximadamente 10%
em 2026 por causa da restrição chinesa.
[7]
Impactos já chegam ao Paraná
O Departamento de Economia Rural da Secretaria da Agricultura do Paraná informou, em boletim publicado no dia 16 de julho, que o preenchimento da cota chinesa já reduziu o ritmo das negociações no mercado brasileiro do boi gordo.
No momento da elaboração do boletim, a arroba bovina estava cotada em R$ 328,10, acumulando uma queda de 2,5% no mês.
[8]
Segundo o Deral, os frigoríficos habilitados a exportar para a China são os mais diretamente atingidos. Parte da carne que deixará de ser enviada ao mercado chinês deverá ser redirecionada ao consumo interno.
Esse movimento pode aumentar a oferta nos supermercados e provocar alguma nos preços nas próximas semanas.
Entretanto, o próprio órgão estadual alerta que os preços ainda permanecem
elevados. Em junho, os cortes dianteiros e traseiros apresentavam altas de 10%
e 14%, respectivamente, na comparação com o mesmo período de 2025.
[8]
A carne ficará mais barata para o consumidor?
Existe a possibilidade de algum recuo, especialmente se uma quantidade maior de carne destinada à exportação permanecer no Brasil.
Isso não significa, porém, que a queda chegará imediatamente ou integralmente aos supermercados.
O preço pago pelo consumidor também depende de fatores como:
- custo do gado;
- alimentação dos animais;
- energia elétrica;
- combustíveis e transporte;
- processamento industrial;
- tributação;
- margens de frigoríficos, distribuidores e supermercados.
Além disso, uma redução prolongada no preço pago aos pecuaristas pode desestimular
a produção. Se houver menor oferta no futuro, os preços poderão voltar a subir.
As duas tarifas não são iguais
Comparar apenas os percentuais de 25% e 55% pode levar a uma conclusão errada.
A tarifa dos Estados Unidos possui alcance mais amplo e atinge diferentes produtos
brasileiros. A medida foi tomada diretamente contra o Brasil depois de uma investigação comercial.
A medida chinesa, por outro lado, está concentrada na carne bovina que ultrapassar
a cota anual. Ela também é aplicada a outros países exportadores.
Dentro do setor pecuário, contudo, o impacto da China pode ser mais intenso,
porque o mercado chinês recebe praticamente metade da carne exportada pelo Brasil.
Entenda a diferença:
Estados Unidos: tarifa adicional de 25% sobre grande parte
dos produtos brasileiros, com uma lista de exceções.
China: tarifa adicional de 55% apenas sobre a carne bovina
que ultrapassar a cota anual destinada ao Brasil.
Conclusão: são barreiras diferentes, adotadas por motivos
diferentes e sem evidência de coordenação entre os dois governos.
O Brasil virou refém de seus grandes compradores?
Durante anos, diferentes governos brasileiros comemoraram recordes de exportação para os Estados Unidos e para a China.
Esse crescimento trouxe dólares, investimentos, produção e empregos. Mas também aumentou a dependência de poucos mercados.
A China é fundamental para a venda de soja, minério de ferro, petróleo e carnes.
Os Estados Unidos, por sua vez, possuem grande importância para produtos
industrializados, máquinas, aeronaves, tecnologia e mercadorias de maior valor agregado.
Quando um desses países fecha parte do mercado, diversos setores brasileiros
sentem os efeitos quase imediatamente.
Quando os dois adotam barreiras em um mesmo período, o problema fica ainda mais
visível.
O Brasil não precisa escolher entre Estados Unidos e China
O debate não deveria ser reduzido a escolher um lado.
O Brasil precisa manter relações comerciais com Estados Unidos, China, União
Europeia, América Latina, África, Oriente Médio e demais mercados.
Quanto maior a diversidade de compradores, menor será o risco de uma decisão
estrangeira provocar uma crise dentro do país.
Também é necessário vender mais do que matérias-primas. O Brasil precisa agregar
valor à sua produção, fortalecer a indústria, investir em tecnologia e exportar produtos processados.
Exportar soja, carne e minério é importante. Mas exportar alimentos industrializados,
máquinas, softwares, medicamentos, aeronaves e tecnologias gera mais renda e empregos qualificados.
O ponto do Muka
As tarifas impostas pelos Estados Unidos e pela China mostram que nenhuma
potência coloca os interesses brasileiros acima dos seus próprios interesses.
Washington protege suas empresas. Pequim protege seus pecuaristas. Cada lado utiliza seu poder econômico para negociar e pressionar.
O Brasil precisa abandonar a ilusão de que alinhamento político ou proximidade
ideológica garantem portas abertas no comércio internacional.
Não precisamos ser inimigos dos Estados Unidos nem da China. Precisamos negociar com os dois, respeitar os dois e, principalmente, fazer com que os dois respeitem o Brasil.
Em relações internacionais, não existem amigos permanentes. Existem
interesses permanentes.
Bibliografia e fontes consultadas
-
UNITED STATES TRADE REPRESENTATIVE – USTR.
USTR Section 301 Action on Brazil’s Unreasonable Acts, Policies,
and Practices.
Publicado em 15 de julho de 2026.
Disponível em:
USTR – decisão final sobre as tarifas contra o Brasil
.
Acesso em: 17 jul. 2026. -
UNITED STATES TRADE REPRESENTATIVE – USTR.
Notice of Action: Brazil’s Acts, Policies, and Practices Related
to Digital Trade and Other Matters.
Federal Register Notice, 15 de julho de 2026.
Disponível em:
USTR – documento oficial e relação de produtos
.
Acesso em: 17 jul. 2026. -
UNITED STATES TRADE REPRESENTATIVE – USTR.
Fact Sheet: President Trump Directs USTR Section 301 Action in
Response to Brazil’s Unreasonable Acts, Policies, and Practices.
Disponível em:
USTR – resumo das tarifas e principais exceções
.
Acesso em: 17 jul. 2026. -
REUTERS.
Brazil readies “tough” response to new Trump tariffs, sources say.
Publicado em 16 de julho de 2026.
Disponível em:
Reuters – possíveis medidas de resposta do Brasil
.
Acesso em: 17 jul. 2026. -
REUTERS.
Brazil unclear whether beef in transit to China is subject to new
import quotas.
Publicado em 6 de janeiro de 2026.
Disponível em:
Reuters – cotas chinesas para a carne brasileira
.
Acesso em: 17 jul. 2026. -
SECRETARIA DE ESTADO DA AGRICULTURA E DO ABASTECIMENTO DO PARANÁ –
SEAB.
Boletim Conjuntural – Semana 27 de 2026.
Departamento de Economia Rural – Deral.
Publicado em 2 de julho de 2026.
Disponível em:
Deral – cota chinesa e tarifa sobre a carne bovina
.
Acesso em: 17 jul. 2026. -
REUTERS.
Brazil’s beef exports could drop 10% in 2026 due to Chinese tariffs,
says lobby ABIEC.
Publicado em 5 de maio de 2026.
Disponível em:
Reuters – projeção da Abiec para as exportações
.
Acesso em: 17 jul. 2026. -
SECRETARIA DE ESTADO DA AGRICULTURA E DO ABASTECIMENTO DO PARANÁ –
SEAB.
Boletim Conjuntural – Semana 29 de 2026.
Departamento de Economia Rural – Deral.
Publicado em 16 de julho de 2026.
Disponível em:
Deral – efeitos da cota chinesa no mercado do boi gordo
.
Acesso em: 17 jul. 2026.

