Natal em Ponta Grossa: quando a arte encontra a cidade real
Entre a beleza da foto, o esforço de quem trabalha de madrugada e o cotidiano de quem precisa circular pelo Centro,
surge um debate necessário sobre arte, mobilidade e qualidade de vida.
A foto de Henry Milléo que circula nas redes sociais mostra, sem dúvida,
um grande esforço de produção: luzes, estruturas metálicas, banners gigantes,
cores fortes e uma mensagem institucional que toma conta da principal via do Centro de Ponta Grossa.
Em postagem recente, o secretário de Cultura, Alberto Portugal,
lembrou que por trás dessa imagem existem meses de planejamento, estudos,
discussões com fornecedores, equipes que viram a madrugada trabalhando e
profissionais de engenharia, arquitetura, comunicação e arte envolvidos.
Reconhecer esse esforço é o mínimo que se espera de qualquer debate honesto:
ninguém está questionando a dedicação dos trabalhadores.
“Gosto é subjetivo, e todo mundo tem direito pleno de opinar. Estranho seria se
345 mil pessoas concordassem que ficou bonito.”
Gosto é subjetivo, mas a cidade é objetiva
É verdade: gosto é subjetivo. Ninguém espera que 345 mil pessoas pensem da mesma forma.
Alguns vão achar a decoração linda, outros vão achar pesada, escura ou exagerada.
Essa divergência faz parte da arte e da democracia.
Porém, quando a arte sai da galeria e entra na rua, ela deixa de ser apenas uma expressão estética
e passa a ser também uma decisão de política urbana.
Aí, o debate não é só sobre “ficar bonito na foto”, mas sobre como isso impacta a vida real das pessoas:
- a mobilidade de quem precisa circular pelo Centro;
- as vagas de estacionamento que deixam de existir justamente no mês mais movimentado para o comércio;
- a experiência de quem caminha, dirige, trabalha e consome na região;
- a sensação de segurança visual e conforto, principalmente à noite.
Uma decoração bonita, mas pesada e escura
Observando a imagem, a decoração impressiona pela grandiosidade, mas também
chama atenção por ser visualmente pesada:
- predomínio de vermelho e verde escuros, com grandes massas de cor;
- painéis enormes com pouco “respiro” visual;
- iluminação majoritariamente quente, com pouco contraste de luz branca.
O resultado é um cenário que, embora organizado, fica denso e carregado,
principalmente quando somado ao trânsito intenso, às luzes dos semáforos
e aos anúncios das lojas. Para muitos moradores, o sentimento não é de
“magia natalina”, mas de poluição visual.
Quando a estrutura ocupa a cidade
Outro ponto que não pode ser ignorado é a ocupação de vagas de estacionamento.
As estruturas metálicas e os pórticos avançam sobre áreas que, em outros períodos do ano,
servem para parar o carro, embarcar idosos, descarregar mercadorias
ou facilitar o acesso de pessoas com mobilidade reduzida.
Em dezembro, o comércio precisa de fluxo, rotatividade e facilidades para o consumidor.
Tirar vagas em nome da decoração é uma escolha que tem consequências econômicas e sociais concretas.
É legítimo que comerciantes, motoristas e moradores se perguntem:
valeu a pena esse custo?
A cidade que sente também tem o direito de falar
O secretário dedica a imagem a um colega arquiteto e diz que “a gente não vive pra ver, vive pra sentir”.
Eu concordo: a cidade é, antes de tudo, um lugar de sensações.
Mas é justamente por isso que as sensações de quem vive o Centro todos os dias também precisam ser respeitadas.
Quem enfrenta filas, congestionamento, falta de vaga, dificuldade para descer com uma criança
ou com um idoso, também sente. E o sentimento de parte da população é claro:
a decoração, do jeito que foi montada,
ficou bonita nas fotos oficiais, mas pesada, escura e pouco funcional
para o cotidiano da cidade.
Arte que provoca, diálogo que constrói
A arte, como disse o próprio secretário, “provoca e reflete a alma dos homens”.
Se provoca, precisa estar aberta à crítica. Se reflete a cidade,
precisa enxergar não apenas o olhar de quem projeta, mas também de quem
vive e paga por aquela intervenção.
Não se trata de negar o trabalho feito, nem de desmerecer os profissionais envolvidos.
Trata-se de algo maior: pensar o Natal de Ponta Grossa como uma experiência
que una beleza, funcionalidade e participação popular.
Para os próximos Natais
Fica o desejo de que, nos próximos anos, o planejamento da decoração natalina envolva:
- mais luz, mais leveza e menos peso visual;
- soluções que não sacrifiquem tantas vagas de estacionamento;
- diálogo com comerciantes, moradores e entidades de mobilidade urbana;
- descentralização dos enfeites, levando o espírito de Natal também aos bairros.
Ponta Grossa é, sim, uma cidade linda. E justamente por amar essa cidade,
é nosso dever apontar o que pode melhorar.
Porque a verdadeira “Feliz Cidade” não é a que só fica bonita na foto,
mas a que consegue conciliar arte, respeito ao espaço público
e qualidade de vida para quem mora aqui.
Este texto é uma reflexão independente, feita a partir da imagem
e das manifestações públicas sobre a decoração de Natal no Centro de Ponta Grossa.
Sobre o autor
Samuel Sleiman Mouchaileh Neto é Administrador Social,
líder comunitário, escritor e articulador de políticas públicas em Ponta Grossa.
Fundador de projetos sociais e culturais, atua na defesa da qualidade de vida nos bairros
e no fortalecimento de ações comunitárias.
Autor do livro Liderança Comunitária Descomplicada,
colunista do Blog do Muka e ativista por políticas públicas eficientes,
humanas e descentralizadas.