Tag: Opinião

  • Quando a estética convence mais que a saúde

    Quando a estética convence mais que a saúde

    O debate seletivo sobre ciência, medicamentos e prioridades sociais

    Por Samuel Sleiman — Jornalismo e Análise Social | Blog do Muka

    Debate sobre estética, saúde e ciência
    A relação contraditória da sociedade com medicamentos, ciência e estética.

    O debate em torno do uso de medicamentos como o Mounjaro expõe uma contradição cada vez mais evidente no comportamento social contemporâneo: a seletividade na forma como a ciência é aceita, questionada ou rejeitada.

    Quando o assunto são vacinas, políticas públicas de saúde ou ações coletivas, parte significativa da população reage com desconfiança. Exige estudos, questiona intenções, suspeita de interesses econômicos e politiza decisões técnicas. Em muitos casos, a ciência passa a ser tratada como opinião.

    No entanto, quando o tema é estética, emagrecimento rápido ou adequação a padrões corporais, a postura muda radicalmente. O questionamento desaparece. A prescrição informal é relativizada. O risco passa a ser considerado aceitável — desde que o resultado seja visível e imediato.

    Essa incoerência não diz respeito apenas ao medicamento em si, mas ao valor que a sociedade atribui ao corpo, à aparência e à validação social. O que deveria ser uma discussão séria sobre saúde, acompanhamento médico e critérios técnicos acaba reduzido a uma lógica de consumo.

    Questionar é saudável. Desconfiar também faz parte do exercício democrático. O problema surge quando esse questionamento é aplicado de forma seletiva — rigoroso para o que é coletivo e permissivo para o que atende desejos individuais.

    O jornalismo, a saúde pública e a gestão responsável têm um papel fundamental nesse cenário: recolocar o debate no eixo da coerência, da informação qualificada e da responsabilidade social. Não se trata de demonizar medicamentos ou impor verdades absolutas, mas de exigir o mesmo critério para todas as decisões que envolvem risco, ciência e vida.

    A ciência não pode ser confiável apenas quando convém.


    Bibliografia e referências

    Blog do Muka — Jornalismo, análise política e reflexão social

    Sobre o autor
    Samuel Sleiman - Blog do Muka

    Samuel Sleiman

    Administrador Social, líder comunitário, consultor institucional e editor do Blog do Muka. Atua com análise política, gestão pública, controle social, projetos do terceiro setor e comunicação institucional, sempre com foco em transparência, responsabilidade pública e desenvolvimento social.

    🔗 blogdomuka.com.br

  • Natal em Ponta Grossa: quando a arte encontra a cidade real

    Natal em Ponta Grossa: quando a arte encontra a cidade real

    Decoração de Natal em Ponta Grossa fotografada por Henry Milléo
    Foto: Henry Milléo / Reprodução

    Natal em Ponta Grossa: quando a arte encontra a cidade real

    Entre a beleza da foto, o esforço de quem trabalha de madrugada e o cotidiano de quem precisa circular pelo Centro, surge um debate necessário sobre arte, mobilidade e qualidade de vida.


    A foto de Henry Milléo que circula nas redes sociais mostra, sem dúvida, um grande esforço de produção: luzes, estruturas metálicas, banners gigantes, cores fortes e uma mensagem institucional que toma conta da principal via do Centro de Ponta Grossa.

    Em postagem recente, o secretário de Cultura, Alberto Portugal, lembrou que por trás dessa imagem existem meses de planejamento, estudos, discussões com fornecedores, equipes que viram a madrugada trabalhando e profissionais de engenharia, arquitetura, comunicação e arte envolvidos. Reconhecer esse esforço é o mínimo que se espera de qualquer debate honesto: ninguém está questionando a dedicação dos trabalhadores.

    “Gosto é subjetivo, e todo mundo tem direito pleno de opinar. Estranho seria se 345 mil pessoas concordassem que ficou bonito.”

    Gosto é subjetivo, mas a cidade é objetiva

    É verdade: gosto é subjetivo. Ninguém espera que 345 mil pessoas pensem da mesma forma. Alguns vão achar a decoração linda, outros vão achar pesada, escura ou exagerada. Essa divergência faz parte da arte e da democracia.

    Porém, quando a arte sai da galeria e entra na rua, ela deixa de ser apenas uma expressão estética e passa a ser também uma decisão de política urbana. Aí, o debate não é só sobre “ficar bonito na foto”, mas sobre como isso impacta a vida real das pessoas:

    • a mobilidade de quem precisa circular pelo Centro;
    • as vagas de estacionamento que deixam de existir justamente no mês mais movimentado para o comércio;
    • a experiência de quem caminha, dirige, trabalha e consome na região;
    • a sensação de segurança visual e conforto, principalmente à noite.

    Uma decoração bonita, mas pesada e escura

    Observando a imagem, a decoração impressiona pela grandiosidade, mas também chama atenção por ser visualmente pesada:

    • predomínio de vermelho e verde escuros, com grandes massas de cor;
    • painéis enormes com pouco “respiro” visual;
    • iluminação majoritariamente quente, com pouco contraste de luz branca.

    O resultado é um cenário que, embora organizado, fica denso e carregado, principalmente quando somado ao trânsito intenso, às luzes dos semáforos e aos anúncios das lojas. Para muitos moradores, o sentimento não é de “magia natalina”, mas de poluição visual.

    Quando a estrutura ocupa a cidade

    Outro ponto que não pode ser ignorado é a ocupação de vagas de estacionamento. As estruturas metálicas e os pórticos avançam sobre áreas que, em outros períodos do ano, servem para parar o carro, embarcar idosos, descarregar mercadorias ou facilitar o acesso de pessoas com mobilidade reduzida.

    Em dezembro, o comércio precisa de fluxo, rotatividade e facilidades para o consumidor. Tirar vagas em nome da decoração é uma escolha que tem consequências econômicas e sociais concretas. É legítimo que comerciantes, motoristas e moradores se perguntem: valeu a pena esse custo?

    A cidade que sente também tem o direito de falar

    O secretário dedica a imagem a um colega arquiteto e diz que “a gente não vive pra ver, vive pra sentir”. Eu concordo: a cidade é, antes de tudo, um lugar de sensações. Mas é justamente por isso que as sensações de quem vive o Centro todos os dias também precisam ser respeitadas.

    Quem enfrenta filas, congestionamento, falta de vaga, dificuldade para descer com uma criança ou com um idoso, também sente. E o sentimento de parte da população é claro: a decoração, do jeito que foi montada, ficou bonita nas fotos oficiais, mas pesada, escura e pouco funcional para o cotidiano da cidade.

    Arte que provoca, diálogo que constrói

    A arte, como disse o próprio secretário, “provoca e reflete a alma dos homens”. Se provoca, precisa estar aberta à crítica. Se reflete a cidade, precisa enxergar não apenas o olhar de quem projeta, mas também de quem vive e paga por aquela intervenção.

    Não se trata de negar o trabalho feito, nem de desmerecer os profissionais envolvidos. Trata-se de algo maior: pensar o Natal de Ponta Grossa como uma experiência que una beleza, funcionalidade e participação popular.

    Para os próximos Natais

    Fica o desejo de que, nos próximos anos, o planejamento da decoração natalina envolva:

    • mais luz, mais leveza e menos peso visual;
    • soluções que não sacrifiquem tantas vagas de estacionamento;
    • diálogo com comerciantes, moradores e entidades de mobilidade urbana;
    • descentralização dos enfeites, levando o espírito de Natal também aos bairros.

    Ponta Grossa é, sim, uma cidade linda. E justamente por amar essa cidade, é nosso dever apontar o que pode melhorar. Porque a verdadeira “Feliz Cidade” não é a que só fica bonita na foto, mas a que consegue conciliar arte, respeito ao espaço público e qualidade de vida para quem mora aqui.

    Este texto é uma reflexão independente, feita a partir da imagem e das manifestações públicas sobre a decoração de Natal no Centro de Ponta Grossa.


    Sobre o autor

    Samuel Sleiman Mouchaileh Neto é Administrador Social, líder comunitário, escritor e articulador de políticas públicas em Ponta Grossa. Fundador de projetos sociais e culturais, atua na defesa da qualidade de vida nos bairros e no fortalecimento de ações comunitárias. Autor do livro Liderança Comunitária Descomplicada, colunista do Blog do Muka e ativista por políticas públicas eficientes, humanas e descentralizadas.