Explorar a fé para fins políticos não é seguir a Cristo
Opinião • Por Samuel Sleiman Mouchaileh Neto
Sou membro de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Minha vida é centralizada em Jesus Cristo, meu Salvador e Redentor. É Nele que encontro direção, consolo e propósito. E é justamente por amar e seguir a Cristo que não posso me calar diante do que venho testemunhando em nossa cidade: a exploração da fé das pessoas com objetivos pessoais e políticos.
Quando o púlpito vira palanque
Tenho visto, com tristeza, púlpitos virarem palanques, mensagens sagradas serem usadas como cabo eleitoral, e lideranças religiosas afirmarem que “quem não votar no pastor vai para o inferno”. Isso não é evangelho. Isso não é política limpa. Isso é manipulação da fé e coerção psicológica do eleitor.
Em Ponta Grossa, já contamos com três vereadores pastores e um vice-prefeito pastor. A presença de pessoas de fé na política é legítima, mas transformar estruturas religiosas em máquinas eleitorais produz um desequilíbrio democrático que fere a essência do voto livre.
O exemplo do Salvador
Nos Evangelhos, Jesus não aceitou que a Casa de Seu Pai fosse transformada em espaço de interesse próprio. Ele expôs a distorção do sagrado e defendeu a pureza da adoração. Se o nome de Cristo é invocado para dividir, explorar ou dominar, estamos muito longe do discipulado verdadeiro.
Estado laico não é contra a fé — é contra privilégios
O Estado é laico. Isso não significa ser contra Deus, contra religiões ou contra a liberdade de culto. Significa que o poder público não pode privilegiar um credo, financiar eventos confessionais exclusivos com dinheiro de todos ou aparelhar estruturas religiosas para fins eleitorais.
Estado laico protege a fé ao impedir que ela seja instrumentalizada pelo poder — e protege a política ao impedir que ela seja capturada por um púlpito.
Minha manifestação como líder comunitário
Como cidadão e como discípulo de Jesus Cristo, eu preciso me manifestar. Não é contra pastores, igrejas ou crentes. É contra a prática de transformar o sagrado em moeda política. Essa lógica corrói o tecido comunitário, exclui quem não é do mesmo credo e coloca a fé como instrumento de poder, e não de serviço.
O que Ponta Grossa precisa ouvir
- Fé não é marketing político. O púlpito é lugar de adoração, não de cabos eleitorais.
- Recursos públicos devem servir a toda a população, independente de religião.
- Liberdade religiosa não é salvo-conduto para campanha antecipada ou coerção do voto.
- Respeito entre crenças: Umbanda, Candomblé, evangélicos, católicos e quem não tem religião — todos são cidadãos.
🕊️ Chamado à consciência
Se a fé que professamos não nos faz mais honestos, compassivos e responsáveis, então ela virou rótulo. Que nossa cidade tenha líderes de todas as crenças — e também sem crença —, mas que a política seja feita com ética, transparência e respeito. Explorar a fé para fins políticos não é seguir a Cristo.
Samuel Sleiman Mouchaileh Neto — Administrador Social e Líder Comunitário em Ponta Grossa-PR. Bacharelando em Direito e MBA em Dados & IA. Autor de Liderança Comunitária Descomplicada.
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